
Eu nunca fui muito de pensar antes de agir. Sempre era na espoleta.
No reflexo. Na sola gasta que açoita o panguaré na estrada. Eu nunca
fui muito, na verdade, de pensar duas vezes antes de falar. Antes de
opinar. Antes de rebater. Antes de me pronunciar. Eu nunca fui de
pintar parede, de cultivar plantinhas nem de cedo acordar... apesar
de muito querer. Gostava mesmo era do carro do papai lavar.
Eu nunca fui de descrever. Sempre desenhava, pintava e bordava.
Sempre gostei mesmo de falar. Conversar e contar peripércias.
Saltar por aí, mundo afora alcançar. Sempre fui sonhadora e gostava
de sonhar. Inventava mil personagens, me perdia no próprio lençol
que, inda pouco, ajudava a embalar. Nunca contei carneirinhos.
Se dormir não conseguia, corria pro colo da mãe. Ligava a TV, via
hora passando e tocando canção. Hoje gosto de ver como em quase
nada mudei. A não ser no tamanho que, apesar de pouco, ganhei.
No coração ainda uma criança risonha, feliz. Que brinca com o papel
pintando, otimista, o sol que amanhã há de vir.
06/04/10 - MarinaC.